Diocese de Novo Hamburgo

OS FILHOS COMO UMA BENÇÃO

- Padre Felipe Klafke Konzen

“Gerei um homem com a ajuda do Senhor” (Gn 4,1). Essas são as primeiras palavras que pendem dos lábios de Eva após o pecado e ecoam a afirmação primeira de Gênesis: “Deus abençoou-os e disse-lhes: crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra” (Gn1,28). Das Sagradas Escrituras decorre, portanto, a certeza de que a vida humana é sempre uma benção e, como tal, é possível afirmar que, por ser uma benção, a origem da vida é divina; que os pais, como abençoados que são, colaboram com a ação do Criador; que cada pessoa humana possui uma dignidade intrínseca, uma vez que é originada em Deus.

O orante em Israel reza proclamando que “a Palavra do Senhor criou os céus, e o sopro de seus lábios, as estrelas” (Sl 32,2a.). A Palavra divina, é, portanto, uma palavra criadora e, dita por Aquele que é Bom (Mt 19,17), sempre cria o que é bom. Oriunda do latim benedicere, a benção é um bem dizer, a ação de falar algo bom. Entende-se que, quando Deus cria, o faz pela palavra, pronuncia, assim, sempre uma benção, uma palavra bem-dita. Decorrente disso, é possível deduzir que cada pessoa, criada por Deus, é um pronunciar divino, uma palavra dita por Aquele que é Bom, uma bendição, ou seja, uma benção. Cada vida está assim, ontologicamente unida à origem primeira, ao seu Criador, Aquele que continua abençoando, isto é, que continua criando ao pronunciar uma boa palavra em cada vida!

Em sua profética Encíclica Humanae Vitae, São Paulo VI afirma que “o amor conjugal exprime a sua verdadeira natureza e nobreza, quando se considera na sua fonte suprema, Deus que é Amor, o Pai, do qual toda a paternidade nos céus e na terra toma o nome”. A paternidade e a maternidade têm sua origem em Deus, por isso os pais, ao gerarem uma nova vida, sabem-se abençoados. Assim como outrora Eva, possuem a consciência do grande mistério do eterno gerar, ou seja, de serem participantes do poder criador de Deus. Dessa maneira, como portadores da benção que é a vida humana, os esposos descobrem qual é a missão que possuem no seio da vida familiar: o serviço à vida. Nos dizeres de São João Paulo II, os esposos devem “realizar, através da história, a benção originária do Criador, transmitindo a imagem divina pela geração de homem a homem”. 3

Maravilhado, exulta o salmista: “Os filhos são bençãos do Senhor; os frutos do ventre, uma dádiva!” (Sl 127). Tendo em vista que a vida humana é uma palavra bem-dita, esta benção é sempre um dom, uma dádiva, um presente! A dignidade da pessoa humana é estabelecida, portanto, no horizonte de uma ética do bem, isto é, existe uma bondade ontológica no ato de existir de cada pessoa, que, unida à origem divina da qual ela é imagem, reafirma a verdade de que cada vida humana é muito boa! (Gn 1,31). Assim, à luz de uma exegese personalista, a pessoa humana compreende-se e, ao mesmo tempo, é compreendida como um particular chamado de Deus, pois é a Palavra divina que faz o homem vir à existência e, uma vez existindo, deve colocar-se em uma relação pessoal com Deus, ao qual ele deve responder. 4

A sociedade hodierna é marcada profundamente por uma cultura de morte, por uma cultura do descartável e por um pensamento secularista. Tais marcas causam dificuldade para compreender pontos importantes sobre os filhos, a vida e o ser humano em si. É difícil entender o fato de os filhos serem uma benção, uma vez que cada vida é originada por um ato bondoso do Criador. Somada a ela, há também a dificuldade em compreender e aceitar a relação existente entre Deus e os pais, que cooperam na geração de uma nova vida. Por fim, como não poderia deixar de ser, há o empenho cada vez mais premente em diminuir, e até desconsiderar, a dignidade de cada pessoa.

Com o termo secularista, entende-se aquela cultura que cultiva em si o secularismo, aspecto presente em uma era que passou de uma sociedade em que a fé em Deus era inquestionável, uma sociedade na qual era quase impossível não acreditar em Deus, para uma sociedade na qual a fé é apenas uma opção, uma possibilidade humana entre outras e, em geral, não a mais fácil de ser vivida. Nessa era e dentro dessa cultura, a compreensão da vida humana não é mais vista como provinda de Deus, não é mais uma palavra bendita, pronunciada por um Outro. Sua origem agora é imanente, consequência apenas uma realidade bio-psíquica, evolutiva ou histórica; desvinculada de sua sacralidade, os filhos podem ser ainda um bem, mas não mais uma benção, pois não há mais um Deus que a pronuncie!

Posterior à cultura secularista, a questão relacionada aos filhos encontra dificuldades tanto na cultura de morte - profundamente marcada por uma mentalidade contraceptiva, abortista, egocêntrica e hedonista, que se opõe diretamente ao Evangelho da Vida e da dignidade da pessoa humana -, como na cultura do descartável, aquela em que “o ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora”. A segunda, ao que se entende, é consequência da primeira, isto é, quando a riqueza antropológica é desconsiderada, com toda sua profundidade e peso ontológico, o que resta é uma ética utilitarista, que reduz a pessoa a meio, considerando-a como algo, não mais como alguém.

Tais culturas parecem encontrar o seu problema de base na visão equivocada que se tem da pessoa humana, ou seja, na falta de uma visão integral do ser humano. São Paulo VI afirmava: “O problema da natalidade, como de resto qualquer outro problema que diga respeito à vida humana, deve ser considerado numa perspectiva que transcenda as vistas parciais (…) à luz da visão integral do homem e da sua vocação, não só natural e terrena, mas também sobrenatural e eterna”. Somente a partir de uma verdadeira antropologia, que considera a pessoa em sua integralidade, é que sua dignidade, sua origem e seu destino podem ser considerados e respeitados. A perda de tal visão, pelo contrário, é campo fecundo para a cultura de morte e para a cultura do descartável, para o aumento de uma mentalidade na qual os filhos não são vistos como bençãos, mas reduzidos a objetos ou a consequências indesejadas.

É preciso afirmar, como conclusão, que a benção pronunciada em Gênesis, permanece. De fato, reza a Igreja: “Ó Deus, vós unis a mulher ao marido e dais a esta união estabelecida desde o início a única benção que não foi abolida nem pelo castigo do pecado original, nem pela condenação do dilúvio”. A Igreja crê, assim, que a benção é mais forte que o pecado e que, portanto, as mentalidades contrárias à vida, como o secularismo, a cultura da morte e do descartável não são capazes de silenciar o pronunciar de Deus, sua palavra bem-dita em cada pessoa! Com parresia e alegria, é preciso que se diga novamente: “Os filhos são bençãos do Senhor; os frutos do ventre, uma dádiva!” (Sl 127).